Durante anos, comprar produtos baratos provenientes da China através da Internet tornou-se uma prática comum entre os consumidores europeus. Plataformas como a Shein, Temu e AliExpress popularizaram um modelo de comércio eletrónico baseado em milhões de pequenas encomendas enviadas diretamente para os consumidores, com preços muitas vezes bastante reduzidos.

Roupa, acessórios, pequenos aparelhos eletrónicos, artigos para a casa, gadgets e inúmeros produtos do dia a dia passaram a chegar às caixas de correio europeias em volumes sem precedentes. Uma das razões para o crescimento deste fenómeno era o regime aduaneiro aplicado às pequenas encomendas, que permitia que mercadorias com valor até 150 euros entrassem na União Europeia sem pagamento de direitos aduaneiros.

Esse cenário mudou a partir de 1 de julho de 2026. A União Europeia eliminou a isenção de direitos aduaneiros para encomendas de baixo valor e introduziu um direito aduaneiro temporário de 3 euros por artigo para mercadorias provenientes de países terceiros, em determinadas condições.

Poucas semanas depois da entrada em vigor da medida, começam a surgir sinais de um impacto significativo no comércio eletrónico. Segundo dados das autoridades aduaneiras francesas citados pelo Ministério da Economia de França e divulgados pela Euronews, o número de pequenas encomendas importadas para a União Europeia terá diminuído entre 30% e 40%, sobretudo no caso dos envios provenientes da China.

A nova taxa alfandegária da UE poderá, assim, estar a alterar significativamente os hábitos de compra dos consumidores europeus e a estratégia das grandes plataformas chinesas.

O que mudou nas encomendas provenientes da China?

Até 30 de junho de 2026, as mercadorias importadas de países terceiros com um valor intrínseco igual ou inferior a 150 euros beneficiavam de uma isenção de direitos aduaneiros na União Europeia.

A partir de 1 de julho, essa realidade mudou. A isenção foi eliminada e passou a aplicar-se um direito aduaneiro temporário de 3 euros por artigo nas encomendas abrangidas pela nova regra. A medida está prevista para vigorar até 1 de julho de 2028, quando deverá avançar uma nova fase da reforma aduaneira europeia.

É importante esclarecer que os 3 euros não correspondem simplesmente a uma taxa fixa por encomenda em todos os casos. A regulamentação prevê a aplicação do direito por artigo, com referência à categoria de produto. Por isso, uma encomenda que contenha vários produtos ou diferentes categorias poderá ter um impacto superior a 3 euros.

A medida aplica-se a mercadorias provenientes de países terceiros e não é dirigida exclusivamente à China. No entanto, o impacto é particularmente relevante para as plataformas chinesas devido ao enorme volume de produtos que estas enviam diretamente para consumidores europeus. A própria Comissão Europeia sublinha que a medida é aplicável independentemente do país de origem ou do operador logístico.

Pequenas encomendas da China caem entre 30% e 40%

Os primeiros dados após a entrada em vigor da nova regra apontam para uma redução significativa no número de pequenas encomendas.

Segundo a informação divulgada pela Euronews em 27 de agosto de 2026, citando dados das autoridades aduaneiras francesas apresentados pelo Ministério da Economia, o número de pequenos pacotes importados para a União Europeia caiu entre 30% e 40% desde a introdução da nova taxa.

A queda é particularmente relevante porque o comércio eletrónico de baixo valor tinha atingido dimensões extraordinárias.

Em 2025, entraram na União Europeia cerca de 5,9 mil milhões de artigos em pequenas encomendas. Isto corresponde a mais de 16 milhões de artigos por dia. A Comissão Europeia destaca ainda que o crescimento deste tipo de importações tem sido muito rápido nos últimos anos.

Os números ajudam a perceber a dimensão do fenómeno. Não se trata apenas de consumidores que ocasionalmente compram uma peça de roupa ou um pequeno acessório. O modelo das plataformas de comércio eletrónico de baixo custo criou um fluxo gigantesco de encomendas individuais.

Porque é que a nova taxa está a ter impacto?

A principal razão é simples: quanto mais baixo for o preço de um produto, maior pode ser o peso de uma taxa fixa de 3 euros.

Imagine, por exemplo, um produto que custe 2 euros.

Uma taxa aduaneira de 3 euros representa um valor superior ao próprio preço do produto.

Mesmo num artigo de 5 euros, acrescentar 3 euros significa aumentar significativamente o custo associado à compra.

Este efeito pode ser especialmente importante para o modelo de negócio das plataformas que vendem produtos de preço extremamente baixo.

Durante anos, um consumidor podia encontrar pequenos acessórios, objetos decorativos ou gadgets por apenas alguns euros. Quando o preço final aumenta devido a direitos aduaneiros, portes ou outros custos associados à importação, a vantagem de comprar diretamente a um vendedor localizado fora da União Europeia pode diminuir.

É precisamente esta alteração na relação entre preço e custo que poderá estar a influenciar o comportamento dos consumidores.

Shein, Temu e AliExpress sentem o impacto

As grandes plataformas de comércio eletrónico de baixo custo estão entre as empresas mais expostas a esta mudança.

De acordo com os dados divulgados pela Euronews, entre junho e julho, os volumes de vendas da Temu terão diminuído 50%, enquanto a AliExpress registou uma queda de 37%. A Shein apresentou uma redução menor, de cerca de 15%.

Estes números mostram que o impacto não é necessariamente igual para todas as plataformas.

A Shein, por exemplo, poderá beneficiar da existência de estruturas logísticas dentro da Europa. Segundo a Euronews, a abertura de um novo armazém na Polónia no final de 2025 ajudou a empresa a reduzir o impacto da nova realidade aduaneira.

Este aspeto poderá tornar-se cada vez mais importante.

Em vez de enviar diretamente todos os produtos da China para consumidores europeus, algumas empresas poderão optar por armazenar mercadorias dentro da União Europeia e distribuí-las a partir de centros logísticos europeus.

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A taxa é apenas para produtos chineses?

Não.

Este é um ponto importante para compreender a nova regulamentação.

A medida da União Europeia não foi criada especificamente para penalizar produtos provenientes da China. O direito aduaneiro temporário de 3 euros aplica-se às importações abrangidas provenientes de países terceiros. A Comissão Europeia afirma expressamente que as mesmas regras se aplicam independentemente do país de origem e do operador logístico.

No entanto, como a China representa uma parcela muito importante do comércio eletrónico de baixo valor dirigido aos consumidores europeus, é natural que as plataformas chinesas estejam entre as mais afetadas.

O objetivo oficial da medida é mais amplo: adaptar o sistema aduaneiro ao enorme crescimento do comércio eletrónico, reforçar a concorrência entre empresas europeias e operadores estrangeiros e aumentar a capacidade de fiscalização dos produtos que entram no mercado europeu.

Porque é que  a União Europeia decidiu acabar com a isenção dos 150 euros?

A isenção foi criada numa época em que as compras online internacionais eram muito menos frequentes.

Entretanto, o comércio eletrónico transformou-se completamente.

A Comissão Europeia considera que o volume atual de pequenas encomendas tornou o antigo sistema inadequado. Em 2025, foram registados cerca de 5,9 mil milhões de artigos de baixo valor a entrar na União Europeia.

Além da questão financeira, Bruxelas aponta também preocupações relacionadas com a segurança e conformidade dos produtos.

A Comissão Europeia refere que uma parte significativa dos produtos de baixo valor importados pode não cumprir adequadamente as regras europeias aplicáveis. A nova abordagem pretende facilitar o controlo das mercadorias e identificar produtos que possam representar riscos para os consumidores.

Concorrência com as empresas europeias

Outro dos argumentos apresentados pela União Europeia está relacionado com a concorrência.

Uma empresa europeia que importa grandes quantidades de produtos para os vender no mercado comunitário está sujeita a regras, procedimentos e custos que podem não ser equivalentes aos suportados anteriormente por pequenas encomendas enviadas diretamente de países terceiros para consumidores.

A existência da antiga isenção dos direitos aduaneiros para encomendas até 150 euros era vista como uma vantagem indireta para determinados modelos de comércio eletrónico.

Ao eliminar essa isenção, a União Europeia pretende criar condições mais equilibradas entre empresas europeias e plataformas internacionais.

Para os comerciantes europeus, esta mudança poderá reduzir parte da pressão exercida pelos produtos ultrabaratos vendidos diretamente por plataformas estrangeiras.

O que significa a nova taxa para os consumidores?

Para quem compra produtos provenientes da China, a principal consequência poderá ser o aumento do preço final de determinadas encomendas.

Contudo, o impacto não será necessariamente igual em todos os produtos.

Num artigo de maior valor, uma taxa de 3 euros pode representar uma diferença relativamente pequena.

Num produto de 2, 3 ou 5 euros, a situação é completamente diferente.

Por esse motivo, a nova regra pode afetar sobretudo o chamado “ultra-low-cost”, ou seja, produtos vendidos por preços extremamente baixos.

É possível que alguns consumidores continuem a considerar vantajoso comprar determinados artigos através de plataformas como Temu, Shein ou AliExpress. Outros poderão passar a comprar menos produtos, juntar várias compras ou procurar alternativas dentro da União Europeia.

A queda entre 30% e 40% registada nas pequenas encomendas sugere que uma parte dos consumidores já está a adaptar o seu comportamento. No entanto, é importante não afirmar que toda a queda resulta exclusivamente da taxa, uma vez que outros fatores podem influenciar os volumes de importação.

A nova taxa pode mudar os hábitos de consumo

Durante os últimos anos, tornou-se habitual comprar produtos de baixo valor com poucos cliques.

Um consumidor podia encomendar vários artigos por valores muito reduzidos e receber cada produto separadamente.

A nova realidade poderá incentivar uma mudança nesse comportamento.

Em vez de comprar cinco ou dez artigos baratos individualmente, alguns consumidores poderão ponderar melhor cada compra. O custo adicional torna mais evidente a diferença entre comprar algo de que realmente necessitam e comprar simplesmente porque o preço é muito baixo.

Esta mudança poderá também contribuir para reduzir algumas compras por impulso.

As plataformas poderão alterar o seu modelo de negócio

As empresas afetadas dificilmente ficarão paradas perante uma redução tão significativa das encomendas.

Uma das possibilidades é absorver parte dos custos adicionais. Outra consiste em aumentar os preços dos produtos. Também poderá haver mudanças nos portes, descontos, campanhas promocionais e condições oferecidas aos consumidores.

Outra estratégia é aumentar a utilização de armazéns dentro da União Europeia.

Quando uma empresa possui stock armazenado num país europeu, pode distribuir determinados produtos a partir desse território, alterando a estrutura logística da venda.

A própria evolução da Shein é apontada como exemplo de como a logística europeia poderá reduzir o impacto das novas regras.

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A medida é temporária

A nova taxa de 3 euros não representa necessariamente o sistema definitivo que vigorará durante muitos anos.

Segundo a Comissão Europeia, o direito aduaneiro temporário aplica-se de 1 de julho de 2026 até 1 de julho de 2028. A partir dessa altura, está prevista uma nova fase relacionada com a reforma aduaneira e a implementação da Plataforma de Dados Aduaneiros da UE.

Isto significa que o atual modelo deve ser encarado como uma solução de transição enquanto a União Europeia moderniza o seu sistema aduaneiro.

Além disso, estão previstas outras alterações relacionadas com o tratamento das encomendas de comércio eletrónico. A Comissão Europeia indica, por exemplo, que os identificadores de produtos passarão a ser obrigatórios a partir de 1 de novembro de 2026, reforçando a rastreabilidade e os controlos de segurança.

Poderão surgir novos custos para as encomendas?

A questão dos custos poderá não ficar limitada aos 3 euros.

A Comissão Europeia refere também a possibilidade de uma taxa de manuseamento da União Europeia para as vendas à distância de mercadorias importadas, prevista para entrar em aplicação a partir de novembro de 2026, no âmbito das novas regras.

Se este tipo de encargos se concretizar, o custo associado às pequenas encomendas poderá aumentar ainda mais.

Para as plataformas que construíram o seu sucesso com base em produtos extremamente baratos, esta evolução poderá obrigar a uma profunda adaptação do modelo de negócio.

O fim das compras ultrabaratas?

Ainda é cedo para afirmar que a nova taxa representa o fim das compras ultrabaratas provenientes da China.

As plataformas de comércio eletrónico têm demonstrado uma enorme capacidade de adaptação. Podem alterar preços, criar novos modelos logísticos, aumentar a presença dentro da União Europeia ou transferir parte dos custos para os vendedores e consumidores.

No entanto, a redução de 30% a 40% nas pequenas encomendas constitui um sinal relevante.

A medida demonstra que uma alteração relativamente pequena no custo de uma encomenda pode ter efeitos consideráveis quando aplicada a um modelo de negócio baseado em milhares de milhões de artigos de baixo valor.

O impacto poderá ser positivo para o comércio europeu?

Esta é uma das questões mais debatidas.

Para os comerciantes europeus, a redução da vantagem associada às importações diretas de baixo valor poderá representar uma oportunidade.

Se determinados produtos deixarem de ser significativamente mais baratos quando comprados através de plataformas estrangeiras, os consumidores poderão voltar a considerar lojas e empresas europeias.

Isso pode beneficiar o comércio local, pequenos negócios e plataformas de comércio eletrónico sediadas na União Europeia.

Por outro lado, os consumidores poderão enfrentar preços mais elevados em determinadas categorias de produtos. Assim, o impacto final dependerá do equilíbrio entre maior proteção do mercado europeu, fiscalização dos produtos e custos suportados pelos consumidores.

Conclusão

A nova taxa alfandegária da União Europeia está a provocar mudanças significativas no comércio eletrónico de baixo valor. Desde 1 de julho de 2026, as encomendas abrangidas com valor até 150 euros deixaram de beneficiar da antiga isenção de direitos aduaneiros e passaram a estar sujeitas a um direito temporário de 3 euros por artigo, de acordo com as regras europeias.

O impacto parece já ser visível. Dados das autoridades aduaneiras francesas citados pelo Ministério da Economia apontam para uma queda de 30% a 40% no número de pequenas encomendas importadas para a União Europeia, especialmente provenientes da China. Plataformas como a Temu e a AliExpress terão registado quedas expressivas nos seus volumes de vendas entre junho e julho, enquanto a Shein apresentou uma redução mais moderada.

Mais do que uma simples taxa, esta mudança representa uma transformação no modelo de comércio eletrónico que permitiu durante anos a circulação de milhões de produtos extremamente baratos diretamente entre vendedores de países terceiros e consumidores europeus.

Para a União Europeia, a medida pretende reforçar a concorrência, melhorar o controlo das mercadorias e responder ao crescimento extraordinário das importações de baixo valor. Para os consumidores, poderá significar preços ligeiramente superiores e uma maior necessidade de avaliar se determinada compra continua a compensar.

Ainda é demasiado cedo para saber se a queda das pequenas encomendas da China entre 30% e 40% será permanente. As plataformas terão certamente oportunidade para adaptar preços, logística e estratégias comerciais. No entanto, os primeiros dados mostram que a nova política aduaneira europeia já está a alterar o comportamento do mercado.

O verdadeiro impacto da medida será conhecido nos próximos meses, à medida que consumidores, vendedores e grandes plataformas de comércio eletrónico se adaptarem às novas regras. O que parece evidente é que a era das encomendas ultrabaratas provenientes diretamente de fora da União Europeia entrou numa nova fase.

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